Por Que Você Sempre Atraí Pessoas Diferentes do Que Deseja em Relacionamentos?
Analisa, sob a ótica da psicologia, como vínculos emocionais, experiências passadas e familiaridade moldam a atração afetiva e mantêm padrões repetitivos nos relacionamentos.
RELACIONAMENTOAUTOCONHECIMENTOCOMPORTAMENTO
Iury Ramos
2/2/20264 min read


Por Que Atraímos Pessoas Tão Diferentes do que Dizemos Querer?
Muitas pessoas sabem descrever com clareza o tipo de relacionamento que desejam. Falam sobre respeito, maturidade emocional, parceria, estabilidade. Mas, na prática, se veem repetidamente envolvidas com pessoas indisponíveis, instáveis, confusas ou emocionalmente incompatíveis.
Esse descompasso entre o que se diz querer e o que se atrai não é acaso, nem azar, nem “dedo podre”. Ele revela algo mais profundo: a diferença entre o desejo consciente e os padrões emocionais inconscientes que organizam nossas escolhas afetivas.
O desejo consciente não governa o comportamento
Existe uma crença popular de que basta saber o que se quer para passar a escolher melhor. Na psicologia, sabemos que isso raramente é verdade.
O desejo consciente é apenas uma camada superficial da mente. A maior parte das nossas decisões afetivas é guiada por memórias emocionais, experiências precoces, vínculos formados na infância e modelos internos de relacionamento que operam fora do campo da consciência.
Você pode querer alguém emocionalmente disponível, mas se seu sistema emocional foi moldado em contextos de instabilidade, o familiar tende a parecer mais seguro do que o saudável.
Não escolhemos aquilo que nos faz bem. Escolhemos aquilo que reconhecemos.
Familiaridade não é sinônimo de saúde
O cérebro humano confunde facilmente familiaridade com segurança. Aquilo que é conhecido, previsível e já vivido tende a gerar menos ansiedade do que o novo — mesmo quando o conhecido é disfuncional.
Se, ao longo da vida, o afeto veio misturado com ausência, crítica, frieza ou imprevisibilidade, esse padrão passa a ser registrado como “amor possível”. Quando surge alguém emocionalmente estável, presente e coerente, o sistema interno pode reagir com estranhamento, tédio ou até rejeição.
Não porque essa pessoa seja inadequada, mas porque ela não ativa os circuitos emocionais conhecidos.
É assim que muitas pessoas acabam dizendo: “Ele(a) é tudo o que eu dizia querer… mas não sinto nada.”
Atração é regulação emocional, não lógica
A atração não é um processo racional. Ela é, em grande parte, uma resposta automática do sistema nervoso.
Somos atraídos por pessoas que despertam emoções intensas, não necessariamente positivas. Ansiedade, expectativa, dúvida e esforço constante podem ser confundidos com paixão quando, na verdade, refletem tentativas inconscientes de resolver feridas antigas.
Muitas relações começam com intensidade justamente porque reativam conflitos não resolvidos: a necessidade de ser visto, escolhido, validado ou finalmente amado de forma diferente do passado.
Nesse sentido, não atraímos o que queremos. Atraímos aquilo que conversa com nossas faltas.
O papel dos vínculos primários
As primeiras relações da vida — especialmente com cuidadores — funcionam como moldes emocionais. Elas ensinam, sem palavras, o que esperar do outro e o que é preciso fazer para receber afeto.
Algumas pessoas aprenderam que amor exige adaptação excessiva. Outras, que amar é competir por atenção. Outras ainda, que o vínculo sempre envolve abandono iminente.
Mesmo quando a mente adulta rejeita esses modelos, o corpo emocional continua buscando cenários parecidos, na tentativa inconsciente de “corrigir” a história.
O problema é que repetição não gera reparação — apenas reforço do padrão.
Por que repetir parece inevitável?
Porque padrões emocionais não se dissolvem com força de vontade. Eles precisam ser reconhecidos, compreendidos e, gradualmente, ressignificados.
Enquanto a pessoa acredita que o problema está apenas nos outros — “só atraio gente errada” — ela perde a chance de observar o fio condutor invisível que atravessa suas escolhas.
A pergunta não é: “Por que sempre encontro pessoas assim?”
A pergunta mais honesta é: “O que em mim se conecta com esse tipo de pessoa?”
Essa mudança de foco costuma ser desconfortável, mas é profundamente libertadora.
Quando o discurso não combina com o estado interno
Existe ainda um ponto importante: muitas pessoas dizem querer relações saudáveis, mas internamente ainda não se sentem prontas para sustentá-las.
Relacionamentos estáveis exigem presença, responsabilidade emocional, comunicação e limites claros. Para quem cresceu precisando se adaptar, agradar ou se defender o tempo todo, esse tipo de vínculo pode gerar mais ansiedade do que conforto.
Nesse caso, a atração por pessoas confusas ou indisponíveis funciona como uma forma inconsciente de manter distância da própria intimidade.
Não é falta de sorte. É coerência interna.
O início da mudança
Parar de atrair pessoas tão diferentes do que se diz querer não começa mudando critérios externos, listas ou promessas.
Começa com um trabalho interno de escuta honesta:
• Quais padrões se repetem?
• Que emoções essas pessoas despertam?
• O que elas têm em comum, para além da aparência ou da história?
Quando a pessoa começa a reconhecer seus próprios mapas emocionais, algo muda silenciosamente. O que antes parecia atraente passa a parecer cansativo. O que parecia sem graça começa a transmitir segurança.
A atração se reorganiza à medida que o mundo interno se transforma.
Atraímos pessoas não pelo que declaramos querer, mas pelo que estamos emocionalmente preparados para viver. Enquanto o desejo consciente aponta para um lugar e o sistema emocional permanece ancorado em outro, o conflito se repete.
Entender esse processo não é se culpar. É assumir responsabilidade pelo próprio movimento interno.
Relacionamentos mais saudáveis não começam com escolhas perfeitas. Começam com consciência.
E consciência, uma vez adquirida, muda tudo.
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