Consumo de Cannabis e Saúde Mental: Benefícios e Malefícios
O artigo analisa, sob a ótica da psicologia, como o consumo de cannabis pode impactar a saúde mental, apresentando possíveis benefícios, riscos, efeitos emocionais e fatores que influenciam esses resultados.
CIÊNCIACOGNIÇÃOSAÚDE MENTAL
Iury Ramos
12/17/20254 min read


Consumo de Cannabis e Saúde Mental: Benefícios e Malefícios
O consumo de cannabis ocupa hoje um lugar ambíguo no debate sobre saúde mental. Para alguns, representa alívio, relaxamento e melhora de sintomas específicos. Para outros, está associado a crises de ansiedade, prejuízos cognitivos e sofrimento psicológico.
Entre discursos polarizados — “cura tudo” de um lado e “faz mal sempre” do outro — existe um ponto essencial que a psicologia precisa sustentar: o efeito da cannabis sobre a saúde mental não é universal, nem simples. Ele depende de contexto, frequência, dose, composição da substância, história emocional e vulnerabilidades individuais.
Entender essa complexidade é o primeiro passo para uma relação mais consciente e responsável com o tema.
O que a cannabis faz no cérebro? Uma base psicológica
A cannabis atua principalmente no sistema endocanabinoide, responsável por regular funções como humor, sono, apetite, memória e resposta ao estresse. Os dois compostos mais conhecidos são:
THC (tetrahidrocanabinol): principal responsável pelos efeitos psicoativos
CBD (canabidiol): associado a efeitos mais moduladores e não intoxicantes
Do ponto de vista psicológico, essa atuação pode gerar tanto sensações de relaxamento e prazer quanto alterações na percepção, na cognição e nas emoções.
O ponto central é que o cérebro não responde de forma padronizada. O mesmo efeito que para um indivíduo é relaxante pode, para outro, ser desorganizante.
Possíveis benefícios psicológicos do consumo de cannabis
Em contextos específicos e bem delimitados, a cannabis — especialmente preparações com maior concentração de CBD — pode trazer alguns efeitos percebidos como positivos.
1. Redução subjetiva da ansiedade
Algumas pessoas relatam sensação de relaxamento e diminuição da tensão emocional, sobretudo em quadros leves e situacionais.
2. Auxílio no sono
Pode facilitar o adormecer em indivíduos com dificuldade de desligar a mente, embora esse efeito nem sempre se sustente a longo prazo.
3. Alívio de sintomas associados à dor crônica
Quando a dor impacta diretamente o estado emocional, o alívio físico pode gerar melhora indireta no humor.
4. Sensação de introspecção
Alguns usuários relatam aumento da percepção interna, reflexão e contato com emoções — embora isso dependa fortemente do estado psíquico prévio.
Importante: Esses benefícios não são garantidos, não substituem acompanhamento psicológico e não se aplicam a todos os perfis.
Malefícios e riscos psicológicos do consumo de cannabis
Aqui a psicologia precisa ser clara e responsável. Os riscos existem e não devem ser minimizados.
1. Aumento da ansiedade e crises de pânico
Especialmente com THC em doses mais altas, é comum o surgimento de taquicardia, pensamentos acelerados, sensação de perda de controle e medo intenso. Pessoas com predisposição à ansiedade tendem a ser mais vulneráveis.
2. Prejuízos cognitivos
Uso frequente pode afetar atenção, memória, capacidade de planejamento e tomada de decisão. Em jovens, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, esses impactos tendem a ser mais significativos.
3. Desorganização emocional
O uso recorrente pode funcionar como uma forma de evitar emoções difíceis, o que impede o desenvolvimento de estratégias emocionais mais maduras. Nesse caso, a cannabis não resolve o sofrimento — apenas o adia.
4. Risco em quadros depressivos
Embora alguns relatem alívio momentâneo, o uso frequente pode aumentar apatia, reduzir motivação, intensificar isolamento e reforçar padrões de fuga emocional.
5. Psicoses e transtornos psiquiátricos
Em pessoas com predisposição genética, o consumo pode antecipar surtos psicóticos, intensificar sintomas e agravar quadros já existentes. Esse é um dos pontos mais delicados e relevantes do ponto de vista clínico.
O fator mais ignorado: o estado emocional prévio
A psicologia observa um padrão importante:
A cannabis tende a amplificar o estado emocional já existente.
Se a pessoa está calma → pode relaxar
Se está ansiosa → pode intensificar a ansiedade
Se está confusa → pode aumentar a confusão
Por isso, usar a substância como regulador emocional frequente costuma ser um sinal de alerta.
Uso recreativo, uso terapêutico e uso como fuga
Psicologicamente, é fundamental diferenciar:
Uso terapêutico: com indicação, acompanhamento e objetivos claros
Uso recreativo ocasional: sem dependência emocional
Uso como anestesia emocional: quando a substância vira recurso principal para lidar com dor, vazio ou angústia
Este último é o que mais gera sofrimento a médio e longo prazo.
Quando o consumo se torna um problema psicológico?
Alguns sinais importantes:
dificuldade de lidar com emoções sem usar
uso para evitar pensar ou sentir
prejuízos na rotina, trabalho ou relações
irritabilidade ou apatia sem a substância
sensação de dependência emocional
Aqui, o foco não é julgamento — é cuidado.
O papel da psicoterapia nesse contexto
A psicoterapia não parte da pergunta “pode ou não pode usar?”, mas sim:
Por que você usa?
O que está tentando regular ou evitar?
O que acontece emocionalmente quando não usa?
O trabalho psicológico busca fortalecer recursos internos, para que a pessoa não dependa exclusivamente de uma substância para se equilibrar emocionalmente.
Consciência é mais importante do que polarização
O consumo de cannabis não é, por si só, vilão nem solução. Ele pode aliviar ou agravar, dependendo de quem usa, como usa e por que usa.
A psicologia convida a uma postura mais madura: menos idealização, menos demonização e mais autoconhecimento.
Saúde mental não se constrói com atalhos emocionais. Ela se constrói com consciência, responsabilidade e cuidado contínuo consigo mesmo.
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